Dólar dispara 10,33%, mas bancos estrangeiros veem exagero no câmbio

Alta desde 23 de outubro foi considerada excessiva por gestores, mas referências variam de R$ 5,20 a R$ 5,50; ajuste fiscal segue como condição.

Cédula de vinte reais com a imagem de um mico-leão-dourado
Cédula de R$ 20 emitida pelo Banco Central, fotografada em dezembro de 2018.Foto: Oleg Yunakov / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O dólar acumulava alta de 10,33% sobre o real desde 23 de outubro, último pregão antes do segundo turno. Apesar desse movimento, estrategistas de grandes instituições estrangeiras classificam a desvalorização como exagerada, segundo levantamento da Agência Estado publicado neste sábado.

A avaliação não representa consenso sobre uma queda imediata. As referências para a moeda variam de R$ 5,20 a R$ 5,50. Os próprios analistas condicionam uma recuperação às medidas fiscais, à composição do novo governo e ao comportamento dos juros.

Projeções não apontam um único caminho

O Commerzbank manteve sua projeção de R$ 5,20 para o fim do ano. O Wells Fargo calcula um preço justo de R$ 5,30 com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Já a Capital Economics elevou sua estimativa para o fim do ano de R$ 5,40 para R$ 5,50.

Referências para o dólar ficam dentro de uma faixa de R$ 0,30 Posições divulgadas por instituições financeiras em 7 de novembro

Instituição Valor para o dólar Horizonte
Commerzbank R$ 5,20 Fim de 2026
Wells Fargo R$ 5,30 Preço justo estimado
Capital Economics R$ 5,50 Fim de 2026
Goldman Sachs R$ 5,25 Em 12 meses

Fonte: Agência Estado. Os valores são estimativas das instituições, não cotações garantidas.

O Goldman Sachs também reviu suas projeções para cima depois da eleição. Para três meses, passou de R$ 4,70 para R$ 5,45. Para seis meses, de R$ 4,75 para R$ 5,35. Para 12 meses, de R$ 4,80 para R$ 5,25.

Essas revisões mostram que “exagero” não significa retorno automático ao nível anterior. O banco avalia que a taxa se estabilizou perto de R$ 5,40, mas ainda vê riscos negativos no curto prazo. A urgência de tratar as contas públicas aparece em todas as análises.

O que sustenta a leitura de excesso

Álvaro Vivanco, do Wells Fargo, ampliou uma posição vendida em dólar contra o real. Na prática, é uma operação que tende a ganhar se o dólar cair. Ele aponta contas externas sólidas e preços favoráveis de produtos exportados pelo Brasil como sustentação para a moeda.

Os analistas também citam o carry, ganho associado à diferença entre os juros brasileiros e os de outros países. Juros reais elevados e reservas cambiais podem atrair capital, na avaliação de Brendan McKenna, do Société Générale. Ele, porém, encerrou posições e espera menos volatilidade antes de uma nova aposta.

O Congresso mais conservador é tratado por parte dos gestores como um freio a gastos adicionais. Essa é a interpretação política das instituições, não um resultado assegurado. A aprovação do Orçamento de 2027 e a escolha do próximo ministro da Fazenda ainda testarão essa expectativa.

O que dizem as instituições: Michael Pfister, do Commerzbank, considera possível uma correção no curto prazo, mas exige um ajuste fiscal crível no médio. William Jackson, da Capital Economics, afirma que suas previsões partem da manutenção do atual quadro e não representam julgamento sobre a eleição.

Câmbio segue ligado às decisões públicas

Uma recuperação do real pode reduzir a pressão sobre produtos importados e insumos usados por empresas brasileiras. O alcance depende da duração do movimento e do repasse aos preços. Uma projeção de banco, isoladamente, não garante alívio no custo de vida.

Os próximos marcos são a definição da equipe econômica, a apresentação das medidas fiscais e a tramitação do Orçamento. Até lá, a faixa de estimativas oferece mais informação que uma única previsão: há espaço para correção, mas também revisões para cima e cautela com o curto prazo.

Como fizemos: Comparamos as posições atribuídas pela Agência Estado a cinco instituições financeiras e selecionamos quatro referências com valores e horizontes explícitos. Separamos projeções para datas determinadas do preço justo calculado pelo Wells Fargo. Não produzimos previsão própria nem tratamos as posições dos bancos como consenso.

Fontes