Câmbio flutuante: como o dólar é definido e quando o BC age
Desde janeiro de 1999, o mercado define a cotação do dólar no Brasil, e o Banco Central só intervém com leilões e swaps em momentos de estresse.

Em 18 de janeiro de 1999, o Banco Central (BC) publicou o Comunicado nº 6.565 e oficializou a livre flutuação do câmbio. Desde então, quem define a cotação do dólar no Brasil é o mercado. O preço sobe ou desce conforme a oferta e a procura pela moeda americana.
Antes, o país usava um sistema de bandas cambiais, em que o BC fixava limites para a cotação. Segundo relatório do próprio banco, a mudança veio “após forte pressão do mercado”. Em janeiro daquele ano, investidores tiravam dólares do país porque duvidavam que as bandas se sustentariam.
O que move o dólar
No câmbio flutuante, o dólar fica mais caro quando há mais gente querendo comprar a moeda do que vender. Entram dólares quando o país exporta, recebe investimentos ou toma empréstimos no exterior. Saem dólares com importações, viagens, remessas de lucros e a retirada de investidores.
Os juros também pesam. Juros altos no Brasil atraem aplicadores estrangeiros, que trazem dólares para investir aqui. Já a desconfiança sobre as contas públicas faz o investidor exigir mais retorno ou levar o dinheiro embora.
A cotação muda a cada minuto e resume todas essas forças ao mesmo tempo. Flutuar, porém, não significa que o BC fica parado. O regime permite intervenções para conter movimentos bruscos, sem meta para o preço do dólar.
As ferramentas do Banco Central
O BC tem três ferramentas principais. A primeira é o leilão à vista, em que o banco vende dólares das reservas sem compromisso de recompra. A segunda é o leilão de linha, em que o BC vende dólares e se compromete a comprá-los de volta numa data marcada.
A terceira é o swap cambial, um contrato liquidado em reais, sem entrega de dólares. No swap tradicional, o BC paga ao investidor a variação do dólar e recebe juros em reais. Funciona como um seguro contra a alta da moeda, sem gastar reservas.
Um episódio recente mostra essas ferramentas em ação. Entre 12 e 30 de dezembro de 2024, com o dólar acima de R$ 6, o BC vendeu US$ 32,6 bilhões, segundo a Reuters. Foram US$ 21,6 bilhões em leilões à vista e US$ 11 bilhões em leilões de linha.
Os leilões à vista saem das reservas internacionais, o estoque de moeda estrangeira e outros ativos que o BC guarda. No fim de julho de 2026, as reservas somavam cerca de US$ 370 bilhões, segundo a série histórica do banco. Elas funcionam como um colchão para momentos de crise.
O que diz o Banco Central: O presidente do BC, Gabriel Galípolo, tratou do tema em novembro de 2025, segundo o Estadão Conteúdo. Ele afirmou que o banco é “muito contente com a linha de defesa do câmbio flutuante”. Também disse que o BC acompanha indicadores para identificar quando alguma disfuncionalidade exige intervenção.
Para o leitor, o câmbio flutuante tem efeito direto no bolso. O dólar influencia o preço de combustíveis, do trigo, dos eletrônicos e das viagens ao exterior. Entender que a cotação reflete juros, contas públicas e cenário externo ajuda a ler as oscilações, e a perceber por que o BC raramente tenta segurá-las.
Fontes
- Análise do Mercado de Câmbio, 1º trimestre de 1999: regime de câmbio flutuante — Banco Central do Brasil
- Reservas internacionais — Banco Central do Brasil
- Sistema Gerenciador de Séries Temporais (série 3546, reservas internacionais) — Banco Central do Brasil
- Após dólar bater R$ 6,24, BC faz intervenção e vende US$ 1,8 bi em leilão à vista — IstoÉ Dinheiro (Reuters)
- BC vende US$ 33 bi em 2024, mas dólar cai só em 2 dias com leilão — Poder360
- Galípolo: BC é contente com câmbio flutuante, observa quando há disfuncionalidade para intervir — IstoÉ Dinheiro (Estadão Conteúdo)



