Hayek e o sistema de preços: como os preços transmitem informação

No ensaio O Uso do Conhecimento na Sociedade, de 1945, Friedrich Hayek explicou por que os preços reúnem informações que nenhum planejador teria.

Fotografia em preto e branco de Friedrich Hayek, de óculos e terno escuro, caminhando ao lado de cinco homens diante de um portão.
Friedrich Hayek (ao centro) em visita à Escola de Negócios da Universidade Adolfo Ibáñez, no Chile, em 1977 (foto de arquivo).Foto: Universidad Adolfo Ibáñez / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 CL)

Em setembro de 1945, a revista American Economic Review publicou um ensaio de 12 páginas do economista austríaco Friedrich Hayek. O título era “The Use of Knowledge in Society”, ou “O Uso do Conhecimento na Sociedade”. O texto virou referência obrigatória sobre o papel dos preços numa economia de mercado.

Hayek recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1974, dividido com o sueco Gunnar Myrdal. O ensaio entrou num debate intenso da época. A pergunta era se um órgão central poderia planejar a economia inteira, decidindo o que produzir, quanto e a que preço.

O problema do conhecimento disperso

Para Hayek, o problema central não é fazer contas, mas saber. O conhecimento necessário para decidir não existe reunido em lugar nenhum. Ele está espalhado entre milhões de pessoas, em pedaços pequenos, incompletos e às vezes contraditórios.

Boa parte desse saber é o que Hayek chamou de conhecimento das circunstâncias particulares de tempo e lugar. É o que sabe quem aproveita o espaço vazio de um navio que volta sem carga, ou o corretor que conhece uma oportunidade passageira. Nenhum escritório central consegue reunir tudo isso a tempo de usar.

O exemplo do estanho

Hayek propõe um exemplo. Suponha que surge, em algum lugar do mundo, um novo uso para o estanho. Ou que uma das fontes de oferta do metal deixa de existir. O estanho fica mais escasso, e o preço sobe.

Quem usa estanho não precisa saber o motivo da alta. Basta ver o preço maior para economizar o metal ou trocá-lo por outro material. Quem usa esses substitutos também reage, e o efeito se espalha pela economia.

Hayek descreve como uma maravilha o resultado: sem nenhuma ordem, milhares de pessoas passam a usar menos o material escasso. Pouquíssimas conhecem a causa, mas todas agem na direção que a escassez pede. Para ele, o sistema de preços funciona como um mecanismo de comunicação.

O autor não dizia que esse ajuste é perfeito. No próprio ensaio, ele reconhece que os ajustes provavelmente nunca são perfeitos no sentido dos modelos de equilíbrio dos economistas. O argumento é comparativo: os preços usam mais informação do que qualquer plano central conseguiria reunir.

Exemplos do cotidiano

O mesmo raciocínio vale para situações comuns. Se uma geada atinge lavouras de café, o preço do grão tende a subir. Consumidores compram menos, torrefadoras procuram outras origens, e produtores de outras regiões ganham motivo para plantar mais.

Ninguém precisa ler um relatório sobre a geada para reagir. O preço resume a notícia e diz a cada pessoa, de forma simples, o que fazer com seus próprios recursos.

O que dizem os críticos: Joseph Stiglitz, Nobel de Economia de 2001, argumenta que a informação nos mercados é imperfeita e desigual entre compradores e vendedores. Em sua palestra do Nobel, “Information and the Change in the Paradigm in Economics”, ele sustenta que, nessas condições, os mercados em geral não chegam sozinhos a resultados eficientes. Outra crítica clássica lembra que os preços não incluem custos impostos a terceiros, como a poluição.

Oito décadas depois, o ensaio continua no centro do debate entre planejamento e mercado. A ideia de que o preço carrega informação ajuda a entender por que choques de oferta, subsídios e tabelamentos têm efeitos que vão muito além do produto atingido.

Fontes