A Riqueza das Nações faz 250 anos: o que Adam Smith defendeu

Publicado em 9 de março de 1776, o livro do escocês explicou a divisão do trabalho, atacou o mercantilismo e usou a imagem da mão invisível.

Retrato a óleo de Adam Smith, de peruca branca e casaco escuro, em meio-perfil.
Retrato de Adam Smith (1723-1790), pintura de autor desconhecido, c. 1800, hoje na Galeria Nacional da Escócia.Imagem: Autor desconhecido / Galeria Nacional da Escócia / Wikimedia Commons (domínio público)

Em 9 de março de 1776, chegou às livrarias de Londres “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”. O autor era o escocês Adam Smith, ex-professor de filosofia moral da Universidade de Glasgow. Em 2026, o livro completa 250 anos, com eventos ao longo do ano na própria universidade.

A obra costuma ser apontada como a fundação da economia moderna. Smith queria responder a uma pergunta simples: o que torna um país rico? A resposta dele contrariava a visão dominante da época.

A fábrica de alfinetes

O livro começa numa fábrica de alfinetes. Smith conta que o trabalho se dividia em cerca de 18 operações, como esticar o arame, cortá-lo, apontá-lo e colocar a cabeça. Numa pequena oficina com dez pessoas, cada uma cuidava de poucas etapas.

Juntas, essas dez pessoas faziam mais de 48 mil alfinetes por dia, ou 4.800 por trabalhador. Trabalhando sozinho e sem treino, escreveu Smith, cada um talvez não fizesse 20 por dia, e talvez nem um.

Para ele, a divisão do trabalho aumenta a destreza, poupa o tempo perdido entre tarefas e estimula a invenção de máquinas. Smith acrescenta que ela depende do tamanho do mercado. Quanto maior o mercado, mais espaço para cada um se especializar.

A mão invisível

A expressão “mão invisível” aparece uma única vez no livro, no Livro IV. Smith descreve quem prefere investir o capital no próprio país, pensando na própria segurança e no próprio ganho. Ao fazer isso, diz ele, essa pessoa é conduzida por uma mão invisível a promover o interesse da sociedade, que não fazia parte de sua intenção.

Em outra passagem famosa, Smith observa que não esperamos o jantar da bondade do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro. Esperamos que cada um cuide do próprio interesse.

A crítica ao mercantilismo

A maior parte do Livro IV ataca o mercantilismo. Era a doutrina, comum na Europa da época, de que a riqueza de um país está no ouro e na prata que acumula. Por isso, governos limitavam importações e davam privilégios a exportadores e companhias de comércio.

Para Smith, a riqueza está no que o país produz e consome, e não no metal guardado. Restrições ao comércio, argumentava, beneficiam grupos de comerciantes e fabricantes à custa dos consumidores.

Smith não defendia um Estado ausente. No Livro V, ele atribui ao governo a defesa, a Justiça e obras públicas que o mercado não ofereceria, além de apoio à educação do povo. Também desconfiava de empresários: escreveu que gente do mesmo ramo raramente se reúne sem que a conversa termine numa combinação contra o público.

O que dizem os críticos: O economista inglês Arthur Pigou, em “The Economics of Welfare” (1920), mostrou que o interesse próprio nem sempre leva ao bem comum. Quando uma atividade causa danos a terceiros, como a poluição, o custo não entra no preço, e o resultado pode ser pior para a sociedade. É a base do que os economistas chamam de falhas de mercado.

Dois séculos e meio depois, especialização, comércio e concorrência seguem no centro das explicações sobre por que alguns países enriquecem. O debate mudou de foco: hoje se discute menos se o mercado funciona e mais onde estão seus limites. Nos dois lados dessa discussão, Smith continua sendo citado.

Fontes