Promessas de Lula exigem R$ 20 bi a R$ 40 bi de ajuste em 2027

Planejamento fala em cerca de R$ 20 bi de remanejamento; o Estadão estima R$ 39,8 bi. Veja quanto cada medida custa em 2027.

Parlamentar de terno cinza gesticula ao microfone em reunião da Comissão Mista de Orçamento, com outros parlamentares sentados ao lado.
Reunião da Comissão Mista de Orçamento (CMO), que analisa o projeto do Orçamento no Congresso, em maio de 2017 (imagem de arquivo).Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Medidas anunciadas pelo governo Lula durante a campanha podem exigir R$ 39,8 bilhões de ajustes no Orçamento de 2027, segundo o Estadão. A informação foi reproduzida pelo Midiamax em 14 de outubro. Já o Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO) fala em cerca de R$ 20 bilhões.

A diferença entre os números é grande. Ela muda o tamanho do aperto que o Congresso terá de resolver antes de votar a lei. Esta reportagem soma os custos que as fontes oficiais detalharam e aponta o que ainda falta explicar.

O governo enviou o projeto de Orçamento de 2027 com previsão de superávit primário de R$ 18,6 bilhões, segundo o Estadão. Superávit primário é a sobra de receitas sobre despesas antes de contar os juros da dívida. Segundo a Rádio Senado, 91,7% do orçamento já são despesas obrigatórias, aquelas que a lei manda pagar.

Quanto custa cada medida em 2027

A tabela reúne os valores para 2027 que o governo informou. Alguns itens são gasto novo. Outros são receita que deixa de entrar nos cofres.

Quatro medidas somam cerca de R$ 34,5 bi em 2027 Custo ou perda de arrecadação previstos para 2027, em R$ bilhões, valores correntes

Medida R$ bi em 2027 Tipo
Reajuste do Bolsa Família, de R$ 600 para R$ 691 22,7 Gasto
Proibição das bets (apostas online) por medida provisória 5,2 Receita perdida
Desenrola 3.0 (renegociação de dívidas), de R$ 15 bi entre 2027 e 2028 5,0 Gasto
Teto de faturamento do MEI 1,57 Receita perdida
Total dos quatro itens (cálculo da redação) 34,5 Soma

Fonte: MPO, nota de 19/10/2026; Poder Executivo, via Poder360 (MEI); Estadão, via Midiamax. Elaboração: redação.

O Bolsa Família é o maior item. O MPO estima impacto de R$ 22,7 bilhões em 2027 para o reajuste de 15,04% no Bolsa Família. A Rádio Senado cita cerca de R$ 24 bilhões para o mesmo aumento. Usamos o valor do MPO, por ser a fonte oficial.

Por que as contas não batem

Os cálculos divergem porque cada um conta de um jeito. O Valor Econômico somou os impactos de várias medidas e chegou a R$ 53,6 bilhões em 2027, segundo o Poder360. Desse total, R$ 45,7 bilhões seriam aumento de despesa e R$ 7,9 bilhões, redução de receita.

O MPO contestou a soma. Segundo a pasta, iniciativas com fontes de financiamento e prazos diferentes “não podem ser somadas indiscriminadamente”.

O projeto que eleva o teto de faturamento do MEI é o caso mais simples. O Senado aprovou o texto em 15 de outubro, por 78 votos a zero. Lula sancionou a lei nesta quarta-feira (21), segundo o Poder360. O Poder Executivo estima perda de R$ 1,57 bilhão em 2027.

O que ainda não está definido

O MPO diz que o remanejamento de cerca de R$ 20 bilhões não eleva o teto de despesas nem altera a meta de resultado primário. A nota, porém, não diz quais despesas serão cortadas nem para quais áreas o dinheiro vai. A mudança só será enviada ao Congresso depois que o relator do projeto for designado.

A Comissão Mista de Orçamento (CMO), que analisa o projeto no Congresso, retoma os trabalhos depois da eleição, segundo a Rádio Senado. Para Diogo Antunes, consultor de orçamento do Senado, “O principal problema é o crescimento das despesas obrigatórias”.

O que diz o Ministério do Planejamento e Orçamento: Em nota de 19 de outubro, a pasta afirma que as ações são “conduzidas com respeito à legislação fiscal e ao processo de consolidação das contas públicas”. Diz também que o remanejamento não eleva o teto de despesas nem altera a meta de resultado primário (Diário do Grande ABC; Poder360).

O que isso significa

O número final ainda não existe. O governo fala em R$ 20 bilhões a remanejar, e o Estadão fala em R$ 39,8 bilhões. Os dois números concordam em um ponto: o Orçamento de 2027 terá de ser ajustado antes da votação.

Quem decide o caminho é o governo, ao enviar a proposta de mudança, e o Congresso, ao votar. Até lá, o leitor pode acompanhar três pontos: o valor oficial enviado ao Congresso, quais despesas serão cortadas e onde entra a perda de receita do MEI.

Como fizemos: Usamos os valores para 2027 informados pelo MPO em nota de 19/10/2026, publicada pelo Diário do Grande ABC e pelo Poder360, a estimativa do Poder Executivo para o MEI, publicada pelo Poder360, e a reportagem do Estadão, reproduzida pelo Midiamax em 14/10/2026. Não localizamos o texto original do Estadão. A soma de R$ 34,5 bilhões é cálculo nosso com os quatro itens que têm valor para 2027, e não inclui os demais itens dos R$ 39,8 bilhões, que não foram detalhados nas fontes consultadas. A Rádio Senado cita cerca de R$ 24 bilhões para o Bolsa Família; usamos o valor do MPO. Os valores são correntes, sem correção pela inflação, e os dados foram acessados em 21/10/2026.

Fontes