O mercado quer saber onde está o plano fiscal de Flávio

A Bolsa bateu recorde e o dólar caiu abaixo de R$ 5 com a dianteira de Flávio. Mas o plano fiscal dele não traz um real de corte — e os R$ 250 bi foram negados.

O prédio da B3, a bolsa de valores brasileira, no centro de São Paulo.
Prédio da B3, a bolsa de valores do país, no centro de São Paulo; o Ibovespa é o principal índice da bolsa (foto de arquivo).Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC0)

Quando Flávio Bolsonaro abriu dianteira no primeiro turno, o mercado mandou o seu recado. A Bolsa bateu recorde e o dólar operou abaixo de R$ 5, segundo o Estado de Minas. O preço embutia uma aposta: ajuste fiscal no ano que vem. A cinco dias do segundo turno, a pergunta que circula nas mesas de análise é mais incômoda. Onde está o plano?

O plano de governo registrado promete um tesouraço. Fala em cortar pelo menos dez ministérios, criar novas regras fiscais e rever a reforma tributária, segundo a Forbes. O que ele não traz é o essencial para precificar um ajuste: número. Nenhuma linha diz quanto seria cortado, em reais.

O número que ninguém assina

O número mais detalhado que circulou saiu da Folha, no dia 8 de outubro. A equipe econômica de Flávio, relatou a IstoÉ Dinheiro, estudava reduzir despesas obrigatórias em cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) — aproximadamente R$ 250 bilhões por ano. O pacote mirava justamente as despesas que a lei amarra: aposentadorias e o BPC reajustados apenas pela inflação, pisos de saúde e educação sem ganho real. Tudo agrupado numa “Super PEC da Transição”, que poderia ser enviada ao Congresso entre a eleição e a posse.

O BPC é o benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Mexer nele e nos pisos é o ajuste de verdade, o que sustenta a queda de juros prometida. E foi justamente esse número que a campanha desautorizou: a assessoria do candidato afirmou que ainda não há posição oficial sobre o tema. O tamanho do tesouraço foi negado pela própria campanha. Sem ele, o investidor fica entre dois cenários: um ajuste de R$ 250 bilhões que a campanha desautoriza, ou um corte sem tamanho que ninguém consegue precificar.

O que o mercado teme

Quem já sentou do outro lado do balcão é cético. Arminio Fraga e Henrique Meirelles, dois ex-presidentes do Banco Central (BC), esperam que Flávio fuja dos detalhes fiscais, segundo o Jornal de Brasília. Analistas lembram que um Congresso fragmentado limita o que qualquer presidente consegue aprovar. E economistas temem que a “pauta da vingança” — anistia e impeachment de ministros — atropele o ajuste.

As contas das promessas também preocupam. Monica de Bolle diz que elas “não fecham de jeito algum”. Sergio Vale, da MB Associados, chama o corte de R$ 200 bilhões de irreal e fala em “estelionato eleitoral”, segundo o Correio Braziliense. Até um nome cotado para a própria equipe econômica de Flávio, Marcelo Kayath, chamou de inviável cortar R$ 200 bilhões em um ano, em reportagem da Terra.

O mercado, é verdade, não joga de um lado só. Em 13 de maio, quando o áudio da conversa de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro veio à tona, a Bolsa caiu 1,8%. O dólar subiu 2,31% no mesmo dia, segundo o Metrópoles. E o boletim Focus, a pesquisa do BC com analistas, reduziu a projeção da Selic para 13,25% no fim do ano com o avanço de Flávio, relatou a Bloomberg Línea. Para 2027, a projeção do Focus já é de 12%. A leitura é dupla: o mercado dá o benefício da dúvida — e cobra à primeira vaca torta.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: O plano de governo registrado promete o tesouraço, novas regras fiscais e juros menores por meio da confiança, segundo a Forbes. Sobre os R$ 250 bilhões, a assessoria do candidato afirma que ainda não há posição oficial sobre o tema, e que a orientação econômica está expressa “de forma objetiva e verificável, no plano de governo”.

Faltam cinco dias para a urna. Se Flávio vencer, a segunda-feira seguinte será de balanço, e a primeira cobrança será a pergunta deste texto: onde está o plano? Um tesouraço sem número, com o único estudo numerado desautorizado, não sustenta recorde de Bolsa nem dólar a R$ 5 por muito tempo. No mercado, confiança se constrói com planilha. Até ela aparecer, a pergunta segue no ar — e no preço.

Fontes