Juro real: como descontar a inflação e medir o ganho de verdade

Juro real é o que sobra do rendimento depois da inflação. Veja a fórmula, exemplos passo a passo e por que a subtração simples engana.

Topo do edifício-sede do Banco Central, em Brasília, com três blocos de concreto e vidro escuro contra o céu.
Edifício-sede do Banco Central, em Brasília, fotografado em 2010 (imagem de arquivo).Foto: Banco Central do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Desde 6 de agosto, a Selic, a taxa básica de juros do país, está em 14% ao ano. Na quinta-feira (10), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que a inflação acumulada em 12 meses até agosto foi de 4,22%. A distância entre esses dois números é o que os economistas chamam de juro real.

O juro nominal é a taxa que aparece no contrato ou no extrato. O juro real é o ganho depois de descontar a alta dos preços. É ele que mostra se o dinheiro guardado compra mais ou menos coisas no fim do período.

A fórmula, passo a passo

A conta certa não é uma subtração, e sim uma divisão. A fórmula é: juro real = (1 + juro nominal) ÷ (1 + inflação) − 1. As taxas entram na forma decimal: 10% vira 0,10, e 4% vira 0,04.

Veja um exemplo ilustrativo, com números redondos escolhidos só para facilitar a conta. Uma aplicação rende 10% em um ano, e a inflação no período é de 4%. A conta fica 1,10 ÷ 1,04 = 1,0577. Tirando 1, o juro real é de cerca de 5,77%.

Em reais, a lógica é esta. R$ 1.000 viram R$ 1.100 depois de um ano. Mas o que custava R$ 1.000 passou a custar R$ 1.040. O ganho em poder de compra é de R$ 60 sobre R$ 1.040, ou 5,77%.

A subtração simples daria 6%. Com taxas baixas, a diferença é pequena. Com inflação alta, o atalho erra mais: num exemplo com juro de 50% e inflação de 40%, a subtração indica 10%, mas o ganho real é de cerca de 7,1%.

Quando a inflação supera o juro nominal, o juro real fica negativo. O saldo cresce, mas o dinheiro perde poder de compra. Em outro exemplo ilustrativo, um rendimento de 3% com inflação de 5% resulta em juro real de cerca de −1,9%.

Na dívida, o raciocínio vale ao contrário. Para quem toma empréstimo, juro real alto significa devolver mais poder de compra do que recebeu.

Olhar para trás ou para a frente

Com os números oficiais de hoje, a conta é 1,14 ÷ 1,0422 − 1, o que dá cerca de 9,4%. Esse cálculo usa a inflação passada, já conhecida. É útil para avaliar quanto uma aplicação rendeu de fato.

Para decidir sobre o futuro, economistas costumam usar a inflação esperada. É o chamado juro real ex-ante, que desconta a inflação prevista para os 12 meses seguintes. As previsões do mercado aparecem no Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central (BC) com bancos e consultorias.

A comparação só funciona com prazos iguais. Uma taxa ao ano deve ser descontada pela inflação de 12 meses, e uma taxa ao mês, pela inflação mensal.

O que diz o Banco Central: Na ata da reunião de agosto, divulgada em 11 de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que “os juros ainda precisam permanecer em nível restritivo”, segundo a Agência Brasil. As atas ficam no site do BC e saem na terça-feira seguinte a cada reunião.

Juro restritivo é aquele alto o bastante, já descontada a inflação, para frear o consumo e o crédito. A próxima decisão do Copom sai em 16 de setembro. Até lá, vale fazer a conta do juro real em qualquer taxa, da poupança ao financiamento: é ela que mostra quem ganha e quem perde com o tempo.

Fontes